Livro: Não Quero Pensar Assim!

Como nosso cérebro funciona diante de um evento traumático? O que acontece para que ele armazene esse evento de maneira tão vigorosa? E como o ativamos, fazendo com que, depois de décadas, ainda sintamos e nos comportemos como na época em que foi armazenado? Essencialmente, temos dois sistemas funcionando lado a lado e simultaneamente. Um comandado basicamente pelo hipocampo e áreas corticais e outro pelas amígdalas. São eles que cuidam da armazenagem de nossas memórias, de nossas experiências. Nossas memórias conscientes ficam a cargo do hipocampo, e daquelas inconscientes, ligadas às nossas emoções, como o condicionamento do medo, quem cuida é a amígdala. Quando temos algum trauma infantil e entramos, na fase adulta, em contato com estímulos idênticos ao daquela fase, o que ocorre é que, as amigdalas, tendo como objetivo nos preparar — também — para uma ameaça futura, elas, por meio das memórias, trazem de novo, em nossa vida adulta, a mesma sensação da época infantil. É nesse processo que nossas emoções, a exemplo do medo, são ativadas e somos levados a nos comportar de forma semelhante àquela ocasião, visto que quando criança não dispúnhamos de repertório comportamental para lidar com aquele tipo de situação. Se não desenvolvi repertório na fase adulta, vai acontecer de eu reviver e repetir aqueles traumas, mesmo que conteste meus pensamentos e tente formar novas crenças — centrais. https://clubedeautores.com.br/livro/nao-quero-pensar-assim
Eis o ponto. Posso sentir uma emoção sem saber regulá-la, estar desprovido de meios para lidar com ela. Isso ocorre porque essa emoção pode me assaltar sem que eu pense, raciocine ou tenha consciência, pois as funções superiores de meu cérebro podem não atuar nesse momento. Tal funcionamento pode fazer com que eu acredite que o perigo não somente é real, como atual.
Outra questão é: por que e como os esquemas chegam a esse nível de domínio e intensidade e se mantêm? Isto é, por que e como são perpetuados?
Parte da resposta pode ser dada a partir de três mecanismos básicos. Iniciemos essa resposta com algo que foi abordado páginas antes, as nossas distorções cognitivas. Isso significa, mais precisamente, não conseguir ver uma situação como ela realmente se apresenta. Pode ser que você reforce um esquema (conjunto de crenças sobre você, as pessoas e o mundo) se apegando apenas à informação que o confirme ou se recusando a validar a informação que o conteste. Bem semelhante ao viés de confirmação, reparou?
O segundo mecanismo ocorre por meio de padrões de vida autoderrotistas, isto é, me considero, antecipadamente, incapaz de enfrentar um evento ou que é inútil o enfrentar, pois, de qualquer jeito, não vou o superar. Por fim, o que contribui para perpetuar nossos esquemas são nossos três estilos de enfrentamento, a resignação, a evitação ou a hipercompensação. A resignação acontece, por exemplo, quando alguém com o esquema de desconfiança/abuso prefere se manter numa relação abusiva. É como se ainda obedecesse a um pai ou a uma mãe que na maior parte do tempo foram agressivos. Ou melhor, não consegue se livrar dessa relação abusiva por julgar ser aquilo o que lhe resta. Se não aceitar aquele tipo de relação nada saudável, ficará sozinha. Como se ficar sozinha não tivesse suas vantagens, que fosse por um curto espaço de tempo.
Outro estilo de os enfrentar, que ilustra bem parte da resposta, é a evitação, ou seja, alguém que tenha o esquema de autocontrole/autodisciplina insuficientes, que não sabe lidar com suas frustrações, as inevitáveis críticas alheias, termina fugindo dos sintomas desse esquema. A evitação pode ocorrer de diversas maneiras, como por meio da ingestão de álcool. Vale abrir parênteses aqui para explicar que esses aspectos dizem respeito ao modo protetor desligado, porém isso é assunto para mais adiante. De toda forma, na cabeça dessa pessoa, é bebendo que ela irá se distanciar, que seja por alguns momentos, da situação (da realidade) que causa a ativação do esquema. O objetivo é não ter de se deparar com essa desconfortável “realidade”. A questão é que uma vez passado o efeito do álcool, a realidade com seus problemas continua lá, o esperando. E a chance de você estar mais ansioso e até deprimido, visto que o álcool deprime o sistema nervoso, é bem grande.
A hipercompensação, o terceiro estilo de enfrentamento, ocorre quando há um exagero no enfrentamento de esquemas. Por exemplo, no caso da relação abusiva, a pessoa com esquema de abandono/instabilidade pode grudar no parceiro e o sufocar. Além disso, pode-se trabalhar excessivamente para compensar um possível esquema de dependência/incompetência. O resultado dessa tentativa de se “fugir” dessa “incompetência” é que a regra de que tenho de ser perfeito para ser competente pode estar por trás disso. Ao mesmo tempo, a pessoa pode estar querendo dizer que não depende de ninguém, uma vez que trabalha muito. Mas é um equívoco, já que é provável que se torne dependente — também — do trabalho devido ao excesso dele.
Você já tentou de tudo para evitar os pensamentos de que as coisas nunca deram ou darão certo, de que não vai superar problemas, de que sempre vai falhar, será rejeitado? Já esforçou-se para começar aquela dieta, aquele curso, se livrar daquela amizade tóxica, colocar um fim naquela relação abusiva ou que já não lhe trazia nenhum prazer, mas não conseguiu? Pois é. Não há fórmula mágica para nos livrarmos de uma forma de pensar que já está enraizada e nos leva a repetir comportamentos, os tão conhecidos hábitos. Não há um prazo para pensar diferente, ou seja, se desfazer de um hábito pouco ou nada saudável. Talvez não baste mudar o pensamento, sua maneira de ver o mundo, talvez seja necessário investigarmos, mergulharmos nas suas crenças mais intensas ou no seu conjunto de crenças, que formam o que chamamos de esquema. Eu diria que um esquema nada mais é do que nossa forma danosa mais indesejada e necessária de se comportar. Por outro lado, já adianto que não vamos nos livrar inteiramente dessa “coisa” que nos leva, em dados momentos, a nos comportar de um modo pouco saudável. Não. Vamos conversar com ela, aprender a conviver com essa “coisa”, sem que ela interfira negativamente em nossas vidas. É, vai dar bastante trabalho. E o tempo necessário? Você e seu esforço é que dirão quanto tempo levará.
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